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Moda na mídia

  • 12 de dez. de 2014
  • 6 min de leitura

Graças aos meios de comunicação, a moda hoje em dia chega aos cantos mais recônditos. A moda depende da mídia, e a mídia, por sua vez, a usa para dialogar com o seu público.

Hoje, vamos ver opinião de dois nomes de peso da indústria da moda em relação a moda na mídia.

Maria Prata - Ex diretora de redação da revista Harper's Bazaar Brasil e, antes de dirigir a revista, Maria foi diretora de conteúdo do canal Fashion TV (atual Glitz) e editora de moda da “Vogue”.

Em entrevista exclusiva para a SV Revista em 2011, Maria falou sobre a diferença de tratar de moda na revista e na TV, como a tecnologia vem contribuindo para a disseminação do tema, os preconceitos da carreira e a expectativa da moda brasileira para os próximos 10 anos. Segue abaixo, duas das perguntas da entrevista que falam sobre a moda na mídia:

SVR: Você veio da mídia impressa e agora está na eletrônica, TV. Como avalia a diferença das duas mídias para tratar de um assunto como a moda?

MP: É muito diferente e muito igual. Acho que isso é um grande aprendizado. Eu trabalhava na revista Vogue que fala com mulheres que já entendem de moda, que têm informação de moda, de um mundo muito seleto de mulheres que buscam a moda mesmo na revista. Quando você vai pra televisão, passa a falar com um público muito mais amplo, não um público que vai até a banca e compra a sua revista e abre na página que ele quer ler. Na televisão, o público está alí trocando de canal, já que hoje em dia são mais de 150 canais quando se fala em TV a cabo. Então, preciso falar de moda de uma maneira mais ampla, porque tenho que prender a atenção, tanto da mulher que é a mesma leitora da Vogue, quanto para um cara que é, sei lá, dentista do interior do Brasil que nunca ouviu falar daquele assunto. Quando se fala em TV é preciso abrir bastante o leque. Resumindo: a diferença é como você fala para uma audiência muito maior, como você prende a atenção das pessoas para a moda partindo de outros assuntos, ligando a moda com outros temas que sejam pertinentes com a vida daquela pessoa. Por outro lado, é igual porque eu falo dos mesmos assuntos.

SVR: Hoje a moda tem sido difundida por diversas ferramentas tecnológicas: blogs, twitter, facebook, além das tradicionais revistas, jornais, e dos programas de TV. Você vê com bons olhos esse “boom” do mercado?

MP: Muito! Acho sensacional. A informação de moda agora é acessível pra todo mundo. Quando a moda entrou na moda? Quando as pessoas começaram a se interessar pelo assunto, a mídia começou a perceber que havia uma demanda pelo tema, o público começou a pedir mais e isso aconteceu junto com a explosão tecnológica. Antigamente, as pessoas que tinham acesso às salas de desfiles eram as que sabiam o que era aquilo, profissionais da área de moda exclusivamente, e a forma de mandar o material para o jornal, de fazer a edição das imagens mais interessantes era muito limitada. Diferente de hoje que você consegue assistir aos desfiles em tempo real, minutos depois as fotos estão na internet, em sites especializados, ou seja: a informação de moda está em todo o mundo. Penso que a gente só tem a ganhar com isso. Acho que é muito válido. O mercado cresce, a informação cresce, a qualidade da informação passa a ser muito importante porque a partir do momento que você tem muitas fontes, a qualidade da informação precisa ser diferenciada porque as pessoas vão ter que filtrar, escolher o veículo que elas gostam, a revista preferida, o programa preferido, o blog mais completo, enfim. Eu acho que o mercado todo ganha.

maria prata.jpg

Ricardo Almeida - estilista.

Em entrevista para a IG em 2013, Ricardo falou sobre o papel da mídia nos seus primeiros desfiles. Segue abaixo alguns trechos:

Ricardo Almeida: Quando eu comecei o SPFW, eu era única marca masculina. As pessoas iam para ver as meninas, dificilmente queriam ver roupa de homem. Meu segundo desfile foi com o Edson, deu retorno na mídia. As mulheres queriam vê-lo, chamavam os maridos, namorados. Foi uma estratégia que usei para uma marca masculina crescer. Comecei o SPFW, vamos dizer, como o patinho feio, sem evidência, sem apelo, aí a gente foi mostrando que nossas salas sempre eram cheias. Fui aumentando o número de pessoas conhecidas, eu não pagava, eram clientes que viraram amigos meus, eu pedia para fazer e eles faziam na maior boa vontade. Um ano eu exagerei. No mundo da moda o certo é não ter famosos desfilando se for pensar em moda, vão falar da pessoa, não da roupa. Se for pensar em mídia você precisa de alguém de gancho. Isso mudou bastante. Pega o desfile da Victoria’s [Secrets], são modelos consagradas, mas é show, tem cantores ao vivo, isso aí eu já fiz antes, depois virou tendência.

iG: E as críticas? Ricardo Almeida: Como houve uma crítica muito forte, acabei o desfile [de 2000] e pensei que ia fazer o próximo com todo mundo de rosto coberto. Foi o que fiz. Foi engraçado porque os modelos falaram que iam desfilar, e cinco minutos antes a gente disse para todos cobrirem o rosto. Foi uma choradeira entre aspas, mas somos profissionais. Aí fiz uns dois desfiles sem famosos, só que o retorno de mídia foi muito menor. O pessoal critica, aí você não põe [famosos] eles também não dão espaço. Voltei a usar e ignorei. Não vou ficar dando ouvidos.

ricardo-almeida.jpg

SPFW, VERÃO 2001

Agora, vamos ver um pouco da influência da mídia sobre a moda:

A mídia influencia muito no vestir das pessoas e na indústria da moda. Você já reparou como as novelas por exemplo influnciam na moda? Você já reparou que todas as pessoas começam a usar o estilo de roupa que algum personagem marcante da novela usa?

E isso não é de hoje, a mídia influencia na moda desde sempre.

A novela Dancin' Days, exibida em 1978 pela Rede Globo é um bom exemplo disso pois, além de ter influenciado na moda, influenciou em diversos outros aspectos como pode ver a seguir:

A novela Dancin' Days fez com que se espalhassem discotecas por todo o país. Por causa dessa influência, a novela foi citada no documentário Muito Além do Cidadão Kane como um exemplo do poder da Rede Globo sobre todo o Brasil. Os telespectadores confundiam realidade da ficção. A atriz Joana Fomm recebia quase diariamente insultos e até propostas indecorosas por telefone, por conta das maldades de sua personagem, Yolanda. Em entrevista na época, Gilberto Braga confessou que até a sua cozinheira havia batido o telefone na cara da atriz. “Ela possui um arsenal de informações que teoricamente a impediriam de fazer essa confusão. Ela me vê escrever a novela, dá uma olhadinha no final do capítulo às escondidas, conversa comigo”, contou o autor. “No entanto, quando tentei sugerir que a Joana não tinha nada a ver com a Yolanda, ela respondeu: ‘Sei que o senhor é que escreve aquilo tudo, não sou burra. Bati o telefone outro dia por causa da cara de nojenta que ela fez quando a Júlia entrou no camburão da polícia. A cara não foi o senhor que escreveu, era dela mesmo.’”

A atriz Sônia Braga com sua personagem Júlia, influenciou a moda no Brasil, com suas roupas de cetim e meias soquetes de lurex. As meias eram meio fosforescentes, listradas e coloridas, com sandálias de tiras e salto alto, que viraram moda nacional. Para a marcante cena da volta triunfal de Júlia, a figurinista Marília Carneiro criou uma calça jogging vermelha de cetim com listas laterais. Completando o visual, a personagem de Sônia Braga usava as sandálias de salto fino sobre as tais meias de lurex.

Dancin’ Days foi tema, neste mesmo ano, de uma reportagem da revista americana Newsweek que destacou a influência da novela sobre os hábitos de consumo dos telespectadores. Além de lançar modismos, como meias coloridas de lurex, ícones de uma geração, a novela também promoveu produtos como água-de-colônia e sandália de salto fino.

Foram vendidas 400 mil bonecas Pepa, brinquedo da personagem Carminha.

Por causa da novela, os voos de asa-delta, praticados pelo personagem Beto de Lauro Corona, deixaram de ser um hobby apenas da zona sul carioca e se expandiram.

O produtor musical Nelson Motta, graças ao sucesso de Dancin' Days, reabriu sua discoteca ainda no ano de 1978 porém, dessa vez, no alto do Morro da Urca. Ela narra em seu livro Noites Tropicais: "Todas as sextas e sábados três mil pessoas lotavam os bondinhos (...) Muita gente que confundia a novela com a discoteca, que imaginava 'estar' na novela, que esperava encontrar a Sônia Braga dançando na pista."

A socialite carioca Leda Castro Neves construiu em janeiro de 1979, mês do encerramento da novela, uma discoteca em sua mansão na Barra da Tijuca e convidou colunáveis fãs deDancin’ Days a comparecerem vestidas como os personagens da novela e realizarem o sonho de participar de uma das noites de festa e diversão semelhantes as da novela, na mansão dos Castro Neves. Todas as mulheres se vestiam com peles de onça, calças de cetim, lamês e tecidos prateados semelhantes aos que a protagonista Júlia usava na novela.

 
 
 

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